quinta-feira, 23 de maio de 2013

Joaquim Barbosa disse pouco


Que me seja perdoado, mas o jargão forense se impõe nas circunstâncias: “concessa máxima vênia”, o Ministro Joaquim Barbosa não disse tudo nas suas procedentes críticas ao Congresso, em especial à Câmara dos Deputados.
Não que ele esteja errado no que disse, mas por não ter atingido o que me parece ser o ponto de origem de tudo que assistimos e padecemos hoje em nome dessa “democracia”.
Os deputados, em tese os representantes do povo, seriam frutos da vontade política expressa nas urnas pelos brasileiros.
Os eleitores seriam os titulares dos direitos políticos.
Os deputados seriam apenas os seus representantes, os representantes dos eleitores.
Mas eles, esses deputados todos, se elegem por caminhos que escapam à consciência dos eleitores. O processo eleitoral é escondido, disfarçado.
Todos se omitem na hora de explicitar, de ensinar, como eles são eleitos e que caminhos percorre o voto que lhes damos.
Ninguém diz o que deveria – e que falta – ser dito. Nem colocam as perguntas que precisam ser feitas.


Por exemplo: quantos deputados foram eleitos com seus próprios votos? Na Câmara de Deputados, serão mais de 10% do total? Não acredito...
E mais: será que os brasileiros têm consciência de que nenhum de nós, nem um só eleitor, sabe quem foi eleito com o voto que deu?
Será que todos nós temos consciência de que só nos é permitido saber em quem votamos, mas não temos o direito de saber quem elegemos?
Deputados “foram eleitos”, ou prepotentemente, “se elegeram”. Quem você elegeu? Isso você não sabe.
Nós votamos em quem queremos. Total liberdade, de escolha e de exercício da nossa “vontade política”, democraticamente expressada.
Damos o nosso voto ao candidato “1” do partido “A”, por força de simpatia pessoal, por razões ideológicas, por que um amigo indicou, por que ele é da minha igreja, porque ele botou água na minha rua.
Esse voto que demos, que expressou nossa vontade, nossa afinidade, nossa conveniência, nossa consciência ou convicções pode contribuir para eleger alguém em quem jamais votaríamos, num partido que jamais apoiaríamos, que nunca nos prometeu nada e - sobretudo – que não nos deve nada.
Nosso voto é desapropriado assim que apertamos o botão.
Com essas tais “alianças” e outras manobras de cúpula com fins eleitoreiros, o voto que damos a um candidato a deputado é um tiro no escuro. Pode acertar no que queríamos e pode acertar no que detestaríamos contribuir para que acontecesse.
Como já disse o Deputado Miro Teixeira, pior que esse Congresso só um Congresso fechado.
A lei da “ficha limpa” chegou ao Congresso por iniciativa popular, e lá foi aprovada. Mas não há macaco que serre o galho no qual se pendura: por lei nada disso mudará.
Talvez uma maciça anulação de votos para deputado possa contribuir para deslegitimar de vez essa representação fraudada. Mas acho que isso o Ministro não podia propor...

Edgar Flexa de Ribeiro é educador.

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