quinta-feira, 18 de abril de 2013

Mineiro desencantado com Minas? Certamente impressionado com Pernambuco. Leiam isto.


O contraste
* Vittorio Medioli

Passei dois dias em Recife e redondezas. Tive a oportunidade de sobrevoar de helicóptero, por duas horas, a região costeira de Pernambuco, que vai de sul a norte, da divisa com Alagoas até a Paraíba. Impressionante a beleza.
Tinha percorrido esse mesmo trajeto em 1999, quando Jarbas Vasconcelos assumiu o governo. Revendo agora os mesmos lugares, além da beleza de praias, matas e coqueirais – depois, ainda, de seis anos e meio de administração de Eduardo Campos, candidatíssimo à Presidência da República –, notei uma revolução.

Creio que poucas regiões do planeta tenham recebido tantos investimentos e empreendimentos como Pernambuco. 
Canteiros navais se dobrando, estrutura portuária marcada por uma verdadeira explosão de iniciativas de ponta, refinaria, polo petroquímico, fábricas de todas as espécies e de alta tecnologia, canteiros de obras públicas e privadas numa sequência incontável. Pontes e rodovias sendo erguidas por todo lado. Desenvolvimento fervilhando.
Volto, abro a edição de ontem de O Tempo: “Produção industrial de Minas cai 11%”. Entre o que vi em Pernambuco e o título da seção econômica de ontem, a relação surge imediatamente. Procuro, também, um paralelo entre uma viagem recente de helicóptero de Betim até Confins e aquela que realizei na costa pernambucana.
Aqui os telhados são antigos e empoeirados, os galpões, de desenho e estrutura acanhados, sem brilho e manchados, alguns furados e abandonados. Lá em Recife: telhados faiscando a novo sob o sol, planejados e construídos com técnicas modernas, requinte de desenho, torres eólicas, até alguns painéis solares, rodovias “sem economia” de pistas, que cortam, em linha reta, os obstáculos naturais, atravessam manguezais e cursos d’água.
Nota-se que o progresso chegou e respeitou a natureza, integrou-se sem agredir. Justo equilíbrio. Imagino a agilidade e a eficiência subjacentes a esse processo de crescimento rápido, que se preservou e melhorou, gerando emprego e renda, resgatando uma população sem perspectivas e deixando fôlego à natureza. Agrada aos olhos.
Fico sabendo que não se gastou muito tempo para se desencantarem os projetos e transformá-los em realidade. Alguém se encarregou de alinhar as coisas para que o desenvolvimento não perdesse o embalo. Quem já investiu e as centenas de empresas que estão se instalando, imagino eu, não esbarraram numa burocracia prolixa, cara e extenuante.
Ao contrário, encontraram disposição, compreensão e modernidade. Deve ter gente em Pernambuco firmemente comprometida a “fazer acontecer”, que tem pressa de ver o progresso chegar de forma correta, vocação para desbastar problemas, aplainar obstáculos, colaborar com o empreendedorismo.
Dizem que cidades da costa, no mundo todo, são mais abertas para novidades e diversidades. A cada navio que atraca, recebe-se um pedacinho de mundo e se concede outro do mundo que fica debaixo dos pés.
As coisas devem, assim, movimentar-se depressa, pois navio ganha transportando, e não ficando parado. A demora representa perda. O sucesso é o dinamismo, diferente da agricultura, que precisa aguardar meses para colher. De um lado, se encontram pessoas menos formais, acostumadas com navegantes que devem zarpar rapidamente, aproveitar os ventos. Assim, celeridade e eficiência condicionam o ambiente de Pernambuco.
Em Minas, o vento não empurra, faz a fruta cair antes da hora. Mas existem outros e mais evidentes fatores que explicam o “segredo de Pernambuco”? A política tributária local, o incentivo, os financiamentos abundantes e destravados. Talvez se devam procurar na falta de compreensão do público com o empreendedor? Na cultura conservadora, cartorial, enraizada em Minas? Tratar de iniciativas econômicas, dizem os entendidos, é árduo como escalar ou aplainar montanhas.
Em Pernambuco, ficou simples e vantajoso, como surfar a onda ou encher a vela com o vento. O resultado é um extraordinário crescimento, pra lá de chinês. E aqui? Parece que apenas “vereadores” de Betim e Ibirité se dão conta e reclamam da retirada de um polo petroquímico, prometido por Lula em 2005, quando se fizeram testemunhas de um convênio no Palácio da Liberdade para implantação de um polo acrílico. Investimento pra lá de bilhão.
A assinatura se deu aqui, mas o polo se encontra hoje, sem explicação, sem compensação, executado na Bahia. Outro em Alagoas, outro em Pernambuco. Aqui a Refinaria Gabriel Passos, com seus 50 anos, está à beira de uma catástrofe, sucateada, obsoletada pela falta de investimento, ampliação e modernização. Quem vê um dos tantos polos petroquímicos do Nordeste e depois sobrevoa a esquálida realidade da refinaria Gabriel Passos não tem dúvida. O futuro de Minas se complicou.
* Diretor-presidente do jornal O Tempo e ex-deputado federal.

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