domingo, 28 de abril de 2013

Defeito já veio no DNA


Outra fábula do andar de cima, por Elio Gaspari

Elio Gaspari, O Globo
De uma hora para outra, o reconhecimento de que os empregados domésticos têm direito às mesmas garantias que seus empregadores se tornou um retrato das ansiedades do andar de cima nacional.
O doutor Romero Jucá, ex-líder do governo no Senado, defendeu a redução da multa em casos de demissão sem justa causa para algo como 5% ou 10% sobre o saldo do FGTS.
Tudo bem, quando o patrão é demitido, embolsa a multa de 40%. Quando ele demite a cozinheira, paga só 10%. Afinal, ela é "gente diferenciada".
A doutora Gleisi Hoffmann trabalha com outra ideia, a de aumentar o desconto no Imposto de Renda para os gastos com empregados domésticos.
Tudo bem, a Viúva subsidiará a contratação da cozinheira que, por sua vez, ralará na fila do SUS. Quem não tem empregado ficará com o custo social do mimo dado a quem tem.

Adam Smith

Nada de novo no capitalismo brasileiro. Afinal, Adam Smith (1723-1790), o pai da economia moderna, vivia do seu trabalho como professor e diretor de uma alfândega. Quando interrompeu um curso, tentou devolver o dinheiro das aulas que não deu.
Ensinou ao mundo as virtudes da "mão invisível" do mercado. Seu similar nacional, o Visconde de Cairu (1756-1835), conseguiu sua aposentadoria pública aos 50 anos e foi o primeiro professor de "ciência econômica" de Pindorama.
Ganhava 400 mil réis (mais a aposentadoria), mas nunca deu uma aula. Cairu descobriu outra mão invisível, aquela que tira dinheiro de quem não o tem e o coloca no bolso de quem o tem.

Elio Gaspari é jornalista.

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