terça-feira, 26 de março de 2013

Sinais de racionamento

O Globo
Não fosse bastante o clima de insegurança regulatória que passou a pairar sobre o setor elétrico com a desastrada intervenção do governo em nome da boa causa do corte de tarifas, a temporada de chuvas está no final e os reservatórios se encontram, na média, no nível mais baixo dos últimos dez anos, com apenas 52% de sua capacidade no Sudeste e no Centro-Oeste, onde estão 70% do armazenamento de água do sistema.
Infelizmente, do ponto de vista da geração de energia, tem chovido no lugar errado: mais no litoral e menos nas cabeceiras dos rios que abastecem os reservatórios das hidrelétricas.
Os dois ingredientes misturados — dúvidas regulatórias e falta de chuvas — exigirão do governo uma competência administrativa em alto grau. E não apenas no setor elétrico, mas na gestão financeira e fiscal. Pois, se confirmado o mau período hidrológico, as termelétricas terão de ficar ligadas sem interrupção até o próximo ciclo de chuvas, no verão de 2013/2014.
Por terem as térmicas um custo operacional mais elevado que as hidrelétricas, por usarem gás, óleo diesel e óleo combustível, em vez de água, o Tesouro, calcula-se, terá de destinar R$ 11 bilhões para fechar as contas das empresas, ou seja, a despesa de R$ 2,6 bilhões feita em 2012 com o mesmo fim multiplicada por quase cinco.


Sem este dinheiro, as operadoras quebrariam ou a presidente Dilma teria de voltar atrás na promessa do corte de 20% na conta de luz. Ruim para a economia, mortal para o projeto da reeleição.
Do tamanho de quase metade de um orçamento anual do Bolsa Família, a despesa não prevista se soma aos efeitos das desonerações tributárias e de uma economia cujo crescimento deverá ficar na faixa dos 3%, com reflexos na arrecadação, e contribui para estreitar a margem de manobra no campo fiscal.
Juros mais baixos são sempre uma ajuda. Mas contar com eles como variável da equação fiscal, e quando a inflação se mostra ameaçadora, é querer viver perigosamente.
Ao mesmo tempo em que gerencia esta conjuntura, o governo precisa consertar o estrago feito ao impor uma desvalorização patrimonial às empresas, na renovação de concessões e revisão de tarifas. Foi tão draconiana a operação que apenas as estatais federais “aceitaram” as condições.
A desvalorização das empresas em bolsas, no Brasil e lá fora, foi substancial, sinal de que será mais difícil qualquer capitalização via mercado para financiar investimentos. E, no elétrico, como em vários outros setores da economia, faltam investimentos. Para os quais é essencial a iniciativa privada, porque o Estado não tem condições de tocá-los. Também como em outras atividades, o governo Dilma precisa reconquistar a confiança dos investidores. Até para ampliar o parque termelétrico, a salvação em 2013 e sempre que não chover.

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