quinta-feira, 14 de março de 2013

O conselho de D. Hélder ainda é valioso. Que a Cúria possa seguí-lo.

No início dos anos 70, dom Hélder Câmara, então arcebispo de Olinda e Recife, foi à Roma para uma audiência com o papa Paulo VI. Os dois eram amigos há mais de 20 anos. Ainda na condição de cardeal de Milão, Giovani Battista Montini visitara o Rio de Janeiro e fora ciceroneado pelo bispo auxiliar Hélder Câmara.
- Santidade, posso confiar ao senhor as minhas angústias? – perguntou dom Hélder segundo me contou de volta da viagem.
Paulo VI respondeu que sim. E dom Hélder disse o que agora resumo e reproduzo de memória:
- Santidade, por que a Igreja não volta às suas origens? Por que tantos palácios, tanta ostentação, tanta riqueza? Por que Vossa Santidade tem de viver como se fosse um rei?
O papa ouviu calado o desabafo de dom Hélder.
- Posso lhe dar um conselho, Santidade? Não me leve a mal. Mas abandone tudo isso. Acabe com essa pompa. Entregue as riquezas da Igreja para alguma entidade administrar. Ou então venda o que deve ser vendido e reparta o dinheiro com os pobres. Vá morar modestamente numa pequena igreja. E seja, antes de tudo, um pastor. Livre-se de tantos outros títulos que tem.
Quando dom Hélder se calou, Paulo VI pôs as mãos dele entre as suas e respondeu sem disfarçar a emoção:
- Como eu gostaria de poder fazer isso, dom Hélder! Como eu gostaria! Mas não posso Não posso.
Em artigo publicado em El País, Juan Arias, correspondente do jornal espanhol no Brasil, defendeu a volta da Igreja às suas origens e lembrou o que pretendia fazer João Paulo I – o Papa Sorriso -, que sucedeu em agosto de 1978 a Paulo VI para morrer depois de apenas 33 dias no cargo.
Eugenio Pacelli, o único romano eleito papa até hoje, escolheu o nome de Pio XII para governar a Igreja como se fosse um imperador. E assim o fez entre 1939 e 1958. Antes de morrer, distribuiu títulos de nobreza a seus parentes mais próximos.

Cardeal Montini e dom Hélder numa favela do Rio nos anos 50

Albino Luciani, ex-patriarca de Veneza, escolheu o nome de João Paulo I para governar a igreja como o pastor que sempre procurara ser, independente de seus títulos e posição. Na tarde que antecedeu sua morte, reuniu cardeais da Cúria e falou sobre seus planos.
Estava decidido, simplesmente, a ir morar num bairro operário de Roma, levando com ele os cardeais que desejassem ir. Reformaria a Cúria, organismo que administra a Igreja, e entregaria os palácios aos cuidados de uma organização internacional.
Uma das freiras que sempre acompanhavam o papa contou a Arias que ouviu os gritos dos cardeais trancados em uma sala com o papa discutindo o assunto. Na noite daquele dia João Paulo I foi dormir sem ver televisão como de costume. Preferiu ler um livro. Amanheceu morto.
Ainda se passará muito tempo para que se saiba por que Bento XVI renunciou ao papado – o primeiro pontífice a fazê-lo depois de quase 600 anos. Se é que um dia se saberá de fato as razões que o levaram a proceder assim.
Por sua formação, Bento XVI nada tinha de pastor. Era um intelectual. Nunca deu sinais de que cogitava mudar a orientação da igreja. Mas vai ver que ele não tinha a exata dimensão do mar de lama que corre por entre as alamedas bem cuidadas do Vaticano.
O que fará Francisco, o novo papa, quando terminar de ler a íntegra do relatório de pouco mais de 300 páginas que hoje está trancado em um cofre? Encomendado a três cardeais por Bento XVI, o relatório informa sobre a conduta nada imaculada de religiosos pelo mundo a fora.
Francisco atuará pontualmente para exorcizar as manifestações mais ostensivas do demônio? Ou será capaz de surpreender o mundo convocando um concílio para dar novo rumo à igreja? Ou se quedará fraco e acuado até seu pontificado chegar ao fim?
Não é mais jovem. Nem tem uma saúde de ferro.
Nenhum dos atuais cardeais se destaca como alguém esculpido para a tarefa de virar a igreja pelo avesso. De fazê-la se reaproximar do modelo de igreja concebido por seus fundadores.
Mas em 1958 quando Angelo Roncali foi eleito para suceder Pio XII, ninguém pensou que ele tivesse peito para fazer o que fez em cinco anos. João XXIII convocou o Concílio Vaticano II e deu a mais vigorosa sacudidela jamais sentida pela Igreja.
Foram necessários pelo menos três novos papas (Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI) para desfazer o que João XXIII havia apenas começado.
Francisco é tão conservador quanto seus antecessores. Embora seja, tentará mesmo assim oxigenar a igreja?
A conferir.
Oremos por ele.

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